A jornalista e escritora Mirella Duarte defende a preservação do pensamento, da criação e das experiências humanas diante da pressão por produtividade e do avanço da inteligência artificial. Em artigo, ela esclarece que sua reflexão não é uma oposição à tecnologia, mas um questionamento sobre quais tarefas delegar e quais manter como exercício próprio.

A autora recorre à psicanálise para distinguir criação de simples produção. Ao abordar a sublimação, destaca a possibilidade de transformar conflitos e desejos em histórias, imagens ou músicas, compreendendo o ato criativo também como elaboração de si.

Na literatura, Mirella encontra outra referência: a definição de poesia como “a virtude do inútil”, de Manoel de Barros. Em sua leitura, escrever um poema pode representar uma forma de insubordinação em um mundo que cobra produtividade ou retorno de todas as atividades.

A escritora também relata ter ouvido repetidamente, naquela semana, “Divino Maravilhoso”, interpretada por Gal Costa e composta por Caetano e Gil. Ela associa a convocação à atenção presente na canção à necessidade de interromper a rolagem contínua das redes sociais e refletir sobre informações e respostas instantâneas.

Mirella questiona como esse ambiente interfere na construção de posições, inclusive políticas. Ao mencionar seu próprio ritmo de resposta nas conversas por mensagens, pergunta se os intervalos passaram a ser interpretados como desinteresse, sem apresentar uma conclusão.

Para a autora, erros, contradições, memórias e mudanças fazem parte da constituição humana e não devem ser tratados como falhas de eficiência. Ela propõe reservar espaço para atividades criativas e relações afetivas sem exigir utilidade imediata.

Sua reflexão termina com a defesa de um uso consciente do tempo eventualmente devolvido pelas máquinas, preservando a surpresa, a dúvida, o desejo e aquilo que dá sentido à vida.