O uso da gordura do próprio paciente em tratamentos musculoesqueléticos é uma frente promissora de investigação, mas exige cuidado na interpretação das evidências. Essa é a avaliação de Fellipe Valle, médico ortopedista, professor de Medicina e pesquisador em Medicina Regenerativa, em artigo sobre o tema.

Segundo o autor, o tecido adiposo vai além do armazenamento de energia: reúne vasos sanguíneos, matriz extracelular e diferentes populações celulares que participam da comunicação biológica, da modulação da inflamação e da reparação dos tecidos.

Valle ressalta que os produtos derivados da gordura não são equivalentes. Há enxertos, gordura microfragmentada por processamento mecânico e técnicas para obtenção da fração vascular estromal, composta por diferentes tipos celulares. Já o isolamento e a expansão de células em laboratório envolvem maior manipulação e aspectos regulatórios específicos. Por isso, considera inadequado chamar todos esses procedimentos de tratamentos com “células-tronco”.

Na artrose do joelho, uma das áreas mais estudadas, o ortopedista relata que pesquisas e revisões apontam melhora de dor e função em determinados grupos tratados com tecido adiposo microfragmentado. Entretanto, as diferenças em relação a alternativas como o plasma rico em plaquetas nem sempre são grandes. Ele também menciona estudos controlados sem superioridade significativa sobre o placebo.

Para Valle, esses resultados reforçam que uma tecnologia promissora não representa um tratamento milagroso. O autor afirma que nenhum procedimento substitui fortalecimento muscular, controle do peso, atividade física adequada, sono, alimentação e controle de doenças metabólicas.

Diretor técnico da Regend – Centro de Terapias Regenerativas e Controle da Dor, o médico defende seleção criteriosa dos pacientes e acompanhamento das evidências. Em sua avaliação, a questão central é identificar qual produto biológico pode ser útil para cada paciente, tecido e momento do tratamento.